Crise financeira mundial teve início em outubro passado, com a desvalorização do setor imobiliário dos Estados Unidos; especialistas e cidadãos comuns dão a sua avaliação
Por: Helcio Kovaleski – Diário dos Campos – 2/12/08
Para quem acabou de chegar do planeta Marte ou de qualquer outro lugar do espaço sideral, existe uma grave crise financeira em curso no mundo inteiro que começou em outubro deste ano num país localizado no Hemisfério Norte chamado Estados Unidos. Os mais apocalípticos remetem essa turbulência ao terrível crack da Bolsa de Nova York, em 1929, ironicamente também ocorrida no mês de outubro. Os mais amenos, por assim dizer, afirmam que se trata de uma onda passageira como chuvas de verão.
Bem, bota trovoada nisso. A coisa começou mais ou menos assim. O proprietário de um imóvel avaliado em US$ 100 mil, por exemplo, obtinha um financiamento baseado na hipoteca do seu imóvel por um valor de, digamos, US$ 60 mil. Com a valorização do mercado, esse imóvel teve seu valor comercial elevado para U$ 200 mil. O mesmo proprietário poderia comparecer em qualquer banco e pleitear um novo financiamento de mais US$ 60 mil. Isso era (é, ainda?) comum nos EUA. O que aconteceu foi que o preço do imóvel caiu drasticamente para menos dos US$ 100 mil iniciais e a dívida sobre ele se tornou incobrável.
Como esse processo começou nada mais nada menos do que no país mais poderoso do mundo, em muitos sentidos, principalmente financeiro, e a economia há tempos está cada vez mais globalizada e sistêmica – ou seja, o que acontece em qualquer lugar do planeta tem influência em qualquer outro lugar do planeta, ainda mais se o ponto de partida foram os EUA, que tem ligações comerciais com a grande maioria dos países e cuja sua moeda historicamente é um balizador para todas as práticas econômicas mundiais –, ocorre que o mundo financeiro global vem tendo a solidez de pecinhas de dominó em fileira. Para ser mais exato: desde outubro, o mundo está literalmente atordoado com quebradeiras generalizadas de bancos (nos EUA e em países da Europa – isto é, os até bem pouco tempo atrás intocáveis representantes do bom e velho primeiro mundo), quedas de bolsas de valores e um sobe-e-desce contínuo do dólar. Só para se ter uma idéia do estrago, já não se fala mais em bilhões de dólares injetados em economias de alguns países, mas sim em Trilhões.
Diante dessa sombra pantagruélica que paira no mundo, uma pergunta insiste em se fazer presente: serão os efeitos da crise reais ou psicológicos?
A questão cabe tanto quando se fala de grandes, médias, pequenas e microempresas quanto da vida do cidadão comum – esse mesmo que trabalha e vive modestamente e, mês a mês, tem de arcar com as contas de aluguel, mercado, água, luz, telefone, escola, roupas e, claro, lazer.
Para responder a essa pergunta, a reportagem do Diário dos Campos ouviu de especialistas em mercado – empresário, economista e consultoras de empresas –, pessoas comuns e de um psicólogo o que existe de verdade nessa questão. A conclusão é de que, de um lado, existe muita gente preocupada, sim, mas também há pessoas que, vejam só, admitem que ainda não sentiram os efeitos da crise no seu bolso. O sentimento geral, no entanto, é de espera. Um tanto apreensiva, é verdade, mas de espera.
Cultura pessimista cria relações de defesa
Na avaliação de Fabio R. A. Michelete, psicólogo formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e mestre pela Universidade de São Paulo (USP), pelo fato de ser social, o ser humano utiliza as impressões dos demais sobre si e sobre o ambiente para balizar suas decisões, por mais independente que seja. "Uma cultura pessimista, ainda mais se falando em crise, que repete dificuldades o tempo todo, cria reações de defesa. Estas, por sua vez, retraem o consumo, tornando real uma crise que a princípio era de confiança, não econômica", explica.
Segundo Michelete, além dessa "contaminação coletiva", em que a história de fracasso produzido pela retração justifica mais retração, há particularidades no meio. "Indivíduos com história pessoal de privação ou brasileiros veteranos de antigas crises podem ter visões distintas sobre o discurso coletivo", diz.
Opiniões se dividem no comércio e na indústria
Desde o início da crise, a reportagem do DC tem entrevistado pessoas ligadas à indústria e ao comércio de Ponta Grossa, e a constatação é de que as opiniões se dividem. Da parte do comércio, as previsões são de um otimismo relativo em relação às vendas de final de ano. Para o presidente da Federação do Comércio do Paraná (Fecomércio/PR), Darci Piana, o setor fez uma reavaliação e mudou a expectativa de aumento de vendas, em relação a 2007, dos 10,5% apontados antes da crise para atuais 8,5% ou 9% para todo o Estado. Para Piana, a crise "é muito mais séria do que está se apregoando por aí". O setor mais otimista, no entanto, é o de eletroeletrônicos: a previsão está na faixa entre 15% e 20% de aumento em relação ao ano passado.
Já da parte da indústria, há mais apreensão. Na avaliação do empresário Laerte Bittencourt, representante regional da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), a alta do dólar ainda não começou a afetar a indústria de Ponta Grossa. "Mas o setor madeireiro, que já estava em crise com o aumento previsto para o salário de aproximadamente 20% no piso e a queda dos preços em dólar, deve sofrer com a crise e, provavelmente, vai registrar um aumento nas demissões", prevê.
Brasil se difere de outros países, diz Salamacha
A explicação do início desta reportagem sobre como iniciou a crise financeira mundial é do economista, professor, consultor e colunista do Diário dos Campos, Luciano Salamacha. Segundo ele, não se pode dizer que o Brasil tem o mesmo perfil econômico que os países que vêm sofrendo com a crise americana, como os da Ásia e Europa. "No Brasil, por exemplo, não é usual no mercado aceitarem-se como garantia hipotecas em segundo grau. Muito menos se consegue realizar um financiamento de um imóvel que já tem um financiamento. Nos EUA, era isso que acontecia até recentemente", diz ele. E deu no que deu.
Salamacha explica que o mercado financeiro vive de "boatos". "Bancos já quebraram por conta de boatos. Foi isso que aconteceu com o finado Banco Nacional quando um boato de falta de liquidez provocou a quebra e conseqüente venda para o Unibanco", afirma.
Crise é real e cautela, fundamental
De acordo com Sandra Trujillo Costa, consultora do Sebrae local, cautela é fundamental em qualquer situação. "Nessa hora, devemos priorizar necessidades. Os investimentos de curto prazo, se foram cortados ou intaerrompidos, podem causar impactos diretos na vida do cidadão comum. E os investimentos de longo prazo devem ser revistos e re-planejados", afirma.
Para a economista Rosilda Correa Buzzi, formada Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e técnica terceirizada do Sebrae/PR, a crise é real, e também concorda que a cautela deve ser a tônica para os empresários. "Por enquanto, eles aguardam a reação dos consumidores e os impactos que suas ações podem causar no consumo de bens e serviços, além dos riscos de inadimplência que não podem ser ignorados", afirma.
E os cidadãos comuns?
A reportagem do DC também saiu às ruas e entrevistou cidadãos comuns. O pedreiro José Valmir Gonçalves Pereira de 51 anos, diz que o povo está "sofrendo muito".
"Pra mim, a crise interfere. A gente trabalha bastante e o dinheiro que a gente ganha não dá para os gastos da casa", diz. A mesma opinião tem o açougueiro Luciano Martins, 33: "A crise afeta mesmo e mexe no bolso. Alguém tem que pagar o pato. O nosso salário, além de estar defasado, não sobra. Está difícil a situação", avalia.
Já para a vendedora Ângela Neri, 31, os efeitos da crise são psicológicos. "Fala-se tanto em crise, mas o pessoal está gastando, indo às compras. No meu dia-a-dia, não afeta, pois continuo com o mesmo padrão", afirma. Com ela concorda a dona-de-casa Sheise Rosa, 31: "Dependendo do que está acontecendo, a pessoa se desespera, mas não é assim, basta ter calma", recomenda.