“Em Toda Obra de Gênio, Reconhecemos Nossas Próprias Idéias Rejeitadas"
Ralph Waldo Emerson
Outro dia eu li uma pesquisa da Websense que afirmava que, em média, um trabalhador navega 3,4 horas por semana na Internet para fins pessoais. Endereços de e-mail pessoais, sites de compras, homebanking, comunicadores instantâneos e orkut estão entre as preferências dessas pessoas. A partir desse tempo de trabalho comprometido, a liberdade de acesso tem sido considerada uma verdadeira ameaça à produtividade. Algumas empresas reagem a isso cerceando as liberdades de acesso, outras a mantêm como uma liberalidade, na busca de pontos e de uma aura de confiança no empregado.
O exemplo da Internet é o mais recente campo de disputa sobre decidir quais serão as liberdades do profissional. Há exemplos desse campo de discussões nos banco de horas, nas saídas durante o horário de trabalho (ainda que seja para o café), faltas por motivos médicos, etc. Independente da ação tomada, questões mais profundas subjazem a mais esse território de luta entre a vida pessoal e profissional. Todas as vezes que o indivíduo lembrar a seus empregadores que não é um recurso com índice de produtividade por hora constante ao longo dos dias, surgirá a questão.
Considerando a divisão do trabalho entre aqueles que o realizam e aqueles que possuem os meios e os frutos do trabalho – historicamente nos primórdios do capitalismo - desenvolveu-se a crença de que existe um jeito certo e mais produtivo de realizar tarefas dependendo do trabalho e recursos disponíveis. Baseado nessas premissas, os trabalhadores dentro das organizações são cada vez mais responsabilizados e cobrados por desempenho, mas devem adequar seu estilo de trabalho aos horários e prerrogativas definidas por suas chefias.
Somos entendidos como recursos, e o ser humano deve ser capaz de alterar seu “set-up” de acordo com a situação. Muitas pessoas, ao entrarem em seus ambientes profissionais, vestem a “roupa do profissional”, e tornam-se aparentemente mais seguras e objetivas. Quando chegam em casa, vestem a “roupa do cônjuge”, ou do “pai”, ou mesmo a do “descontraído”, tornando-se atenciosos e solícitos. Ajustar esses padrões é ao mesmo tempo adaptativo e limitante. Adaptativo porque nos ajustam ao que se espera do nosso comportamento em determinado contexto, mas limitante porque apresenta apenas uma versão parcial de nossa personalidade – não deixando disponíveis todas as nossas capacidades. A “roupa” que você tem que vestir deve ainda guardar algumas semelhanças com seus valores mais profundos. Em outras palavras, se você aprendeu com seus pais a ser honesto, então não conseguirá sentir-se bem se alguma de suas situações diárias exigirem atitudes desonestas.
As diferentes roupagens que assumimos são determinadas pela pressão social a que todos estamos submetidos. As condições econômicas difíceis muitas vezes nos obrigam a permanecer numa empresa e aceitar seus termos de convivência e regras de trabalho. Como cenário positivo, imaginamos que a empresa consegue ter um funcionário adaptado ao contexto que ela julgou o mais adequado para atingir sua missão. Já na hipótese negativa, o profissional passa a não contar com parte de suas capacidades, e aprende a conviver com um certo nível de frustração.
Com os níveis de exigência sobre os profissionais aumentando no ritmo da evolução tecnológica e do desenvolvimento da concorrência, serão aptos aqueles que melhor se ajustarem a seus ambientes e controlarem seus níveis de frustração. Porém, quanto maior o nível de ajuste do indivíduo, mais características pessoais ele deixa de manifestar. Sem o auxílio de seu “verdadeiro eu” e resignado a adaptar-se a situações que evitem expô-lo a riscos de carreira, os profissionais de nosso tempo tornam-se como animais sem as presas: indefesos diante do desafio de inovar. A criatividade, quando exercida, implica na capacidade de simular mentalmente novas formas de ser realizar ou combinar idéias, além da liberdade de errar no teste de hipóteses.
A questão do impacto negativo de nossas organizações na criatividade e na capacidade de empreender novas idéias é bastante conhecida. Muitos gestores reconhecem a necessidade de inovação e melhoria contínua em seus negócios, mas são raros os contextos em que errar no teste sucessivo e criativo de possibilidades é algo tolerado. Ao longo de suas carreiras, as organizações ensinam sistematicamente a manter as coisas como sempre foram. Somos reforçados pelo comportamento rotineiro e os erros (condições necessárias à criatividade) são punidos. Exceções a essas regras ocorrem com profissionais que podem arriscar ou em áreas em que a criação é o único jeito de realizar um trabalho. Nesse caso, as regras das empresas são flexibilizadas para que não atrapalhe os gênios criativos.
Como criar e ao mesmo tempo adequar-se a um certo nível de previsibilidade importante para que sejamos administrados como recursos? Essa questão, como tem sido colocada, não tem solução. Entretanto ela guarda em si a semente para um caminho alternativo. Se em algum momento reconhecermos o valor e potencial econômico da capacidade criativa, imediatamente os gestores entenderão que recursos são outras coisas. Seres humanos não podem ser tolhidos em seu jeito de ser, e essa postura pode gerar frutos econômicos interessantes. A nova forma de administração que pode nascer daí será mais humanista e pode oferecer um alento a milhões de trabalhadores que sentem um gosto amargo ao acordar nas segundas-feiras. E você? Como se posiciona nesse contexto? Acha que seria capaz de viver com menos regras a te controlar?
É Psicólogo pela PUC-SP, Mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela USP – reconhecido especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pelo Conselho Federal de Psicologia.
É Coach e atual Diretor de Ética da ABRACEM – Associação Brasileira de Coaching Executivo e Empresarial, e filiado à WABC – Worldwide Association of Business Coaches.
Autor do romance "Aprendi a me Amar" (clique aqui) com mensagem sobre auto-desenvolvimento e fortalecimento da auto-estima.
Tem experiência com trabalhos de revisão de estruturas de cargos e definição e avaliação de competências em empresas nacionais e multinacionais de diferentes portes e segmentos – sempre em acordo com as mais severas normas de qualidade. Sua dissertação de Mestrado é sobre o uso de métodos de avaliação de desempenho.
Realiza atividades de avaliação de Perfis individuais e em grupo para fins de seleção, análise de potencial e orientação de carreira, utilizando-se principalmente de entrevistas e das ferramentas:
Teoria de W. M. Marston - com 7 anos de experiência na avaliação de relatórios individuais e de equipes, formou em treinamentos reconhecidos mais de 180 profissionais de recursos humanos, tendo inclusive contribuído para o material de formação utilizado pela Thomas International.
MBTi – Myers Briggs Type Indicator, sendo certificado pela IDH para aplicação e ensino dessa ferramenta de perfil focada no desenvolvimento, desde 2004.
É docente no MBA em Gestão Empresarial da FEA-USP de Ribeirão Preto, e da Pós-graduação da POLICAMP
Associação Brasileira de Coaching Executivo e Empresarial
Worldwide Association of Business Coaches
Vinicius Guarnieri - autor e palestrante